Câmara de Três Lagoas realiza audiência pública para debater impacto dos fogos de artifício

Foto: Divulgação

Na noite desta quarta-feira (26), a Câmara de Vereadores de Três Lagoas promoveu uma audiência pública para discutir os efeitos da soltura de fogos de artifício, com foco especial em pessoas autistas, acamadas e animais. A iniciativa, proposta pelo vereador Marco Silva, reuniu especialistas, autoridades e jovens vereadores para tratar de um tema que vai além do incômodo sonoro.

O evento contou com palestras de duas fonoaudiólogas, Janaína Lara Peres e Cristiane Satiko Ito, e do médico veterinário Luan de Freitas Reino. Também participaram os jovens vereadores Ytalo Kaik Ramos (EE Jomap, apadrinhado por Marco Silva) e Diogo de Sordi (IFMS, apadrinhado pelo vereador Fernando Jurado). O promotor de justiça Antônio Carlos Garcia de Oliveira, conhecido como Totó, usou a tribuna para parabenizar a iniciativa e destacou que o assunto “finalmente está sendo pautado”.

As fonoaudiólogas abriram a discussão com uma afirmação contundente: “o que muitos chamam apenas de barulho, pode se tornar um risco à saúde. Além disso, pode afetar a acessibilidade e a inclusão”.

Janaína Peres explicou a relação entre a fonoaudiologia e os fogos de artifício, lembrando que a área trabalha com comunicação, audição, processamento de estímulos e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela detalhou as três respostas sensoriais comuns no autismo – hiper responsividade, hipo responsividade e busca sensorial – e ressaltou que, para muitas pessoas, o estampido não é um simples “não gostar de barulho”, mas sim um estímulo processado de forma diferente, gerando sofrimento real.

“Os fogos são uma combinação de estímulos: alta intensidade sonora, início súbito, imprevisibilidade, repetição e pouco controle, o que pode favorecer sobrecarga”, afirmou. Ela também mencionou que pessoas hiper reativas podem passar a evitar eventos, modificar rotinas e antecipar crises, e destacou que a solução não se resume a usar abafadores, mas exige antecipação visual, aviso prévio e espaços tranquilos.

Cristiane Satiko Ito complementou alertando para os riscos auditivos para toda a população, como perda auditiva, zumbido, dor, lesões nas estruturas do ouvido e até perfuração timpânica. “Prevenir é mais seguro do que tratar uma lesão”, disse, recomendando redução de exposição, aumento da distância e uso de alternativas de menor ruído. Para os mais vulneráveis, ela defendeu antecipação, ambientes protegidos e acessibilidade.

“A comemoração pode e deve continuar. A alegria pode continuar, mas o sofrimento e o risco evitáveis não precisam continuar”, concluíram as especialistas.

O médico veterinário Luan de Freitas Reino abordou o efeito do barulho sobre cães, gatos e outros animais. Ele explicou que a audição desses animais tem alcance de 300 a 400% maior que a dos humanos, e que o estampido é interpretado como uma ameaça, ativando respostas de sobrevivência.

“O animal não sabe que é ano-novo ou festa junina. Ele percebe um estímulo sonoro intenso e imprevisível”, destacou. O grande perigo, segundo ele, é a tentativa de fuga: animais pulam muros, quebram portas e janelas, sofrem acidentes, atropelamentos e podem se perder.

Entre os mais vulneráveis, estão animais com fobia a ruídos, idosos, portadores de doenças cardiovasculares, com histórico de medo severo ou resgatados com histórico desconhecido. Luan orientou: não deixar o animal sozinho em ambiente inseguro, não prendê-lo de forma que cause lesões, não obrigá-lo a “enfrentar o medo”, não punir comportamentos de medo e jamais administrar medicamentos sem orientação veterinária.

“Para nós, é uma explosão. Para o animal, pode ser uma ameaça imprevisível da qual ele precisa escapar”, resumiu.

O vereador Marco Silva, proponente da audiência, destacou que esse é apenas o início de um movimento para melhorar a convivência em sociedade. Ele também lembrou a necessidade de fiscalização mais rigorosa sobre escapamentos barulhentos de veículos.

Durante o evento, Marco Silva tirou dúvidas da população e explicou o projeto de lei que será apresentado e votado pelos vereadores, comparando a proposta com leis já existentes em outras cidades e estados. Ele agradeceu a todos que contribuíram para o debate e pediu uma sociedade mais consciente.

A audiência pública marcou um passo importante na construção de políticas públicas mais inclusivas e humanitárias em Três Lagoas, colocando em pauta o direito de todos – pessoas e animais – a uma convivência mais segura e respeitosa

Por: Redação

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